PRECIOSA- Um História de Esperança

Preciosa tem 16 anos, é gorda e negra. Mora no Harlem. Seu pai lhe engravidou duas vezes, na 2ª gravidez é expulsa da escola que não lhe ensinou a escrever nem a se comunicar. Teve sua primeira filha aos 12 anos, ela  é chamada de “Mongo” em referência à Síndrome de Donwn da qual é portadora, a criança é criada pela avó. Sua mãe é algo que só vendo para saber, mas recebe os cheques da Assistência Social. Ela sonha ter um namorado mas os meninos a odeiam. Sua vida é um inferno e algo acontece quando vai para uma escola alternativa onde conhece Blu Rain (Paula Patton). Além das estrelas Mariah Carey despida do invólucro de diva glamurosa, de um belo  Lenny Kravitz e do show de falta de humor daquela que aprendemos a ver fazendo humor,  Mo ’ Nique  (Mary, a mãe infeliz de tanta infelicidade) temos muito o que perceber neste longa de temas indigestos e baseado em história real.

Preciosa não é um filme para se assistir, é um filme para se observar,  perceber e  cenas como as da sua chegada da maternidade nos convoca a participar. Saí do cinema, a princípio pensando que o roteiro deixou a desejar, aos poucos concluí que não é um filme denúncia. O roteiro funciona como um mapa onde as situações são caminhos que nos levam a maiores ou melhores (tanto faz) reflexões. Achei o início meio engasgado, até perceber que a ótica mostrada não é a do expectador fora do problema, mas da personagem mergulhada inteira num problema do qual ela não tem plena consciência. Em alguns momentos faltou-me ar. O filme vai crescendo à medida que Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe) cresce através das suas observações nas suas novas experiências, superando suas limitações impostas por uma vida miserável e uma mãe que deixa as madrastas dos contos de fadas com vaga no céu.

O filme critica um Sistema de Assistência Social que assiste sem conhecer quem é o assistido, financiando a desgraça de quem pretensamente fornece subsídios para uma condição melhor. Mostra que um funcionário que goste do que faz cria toda a diferença nos serviços fornecidos e que “casos perdidos” são aqueles que em vez de encontrarem dedicação espremem-se no meio das omissões.

Surpreendente perceber que atos percebidos podem transformar pessoas. Não basta educar, precisa ser educado, mostrar para que serve a educação através do exemplo. A atitude que não se toma pode ser tão veemente quanto uma ação praticada. Alguns valores podem estar perdidos para sempre por detrás dos nossos olhos, se não tivermos um mundo novo para apresentar a quem em fase de crescimento, pareça não ter condições de crescer e muitas vezes é o descrédito e o julgamento que sepulta todo um potencial.

Preciosa é o filme sobre pessoas que aprendem a partir daquilo que vivenciam e de outras que vivendo nada aprendem. Mostra a fuga pelo sonho, pela ilusão, pelo jogo e pela TV. A fuga pela porta da tirania, quando percebendo-se fracassado é imputado  a outro os motivos do próprio fracasso.

O amor pode ser interpretado como desrespeito e se não encontrarmos quem o expresse de alguma forma digna, passaremos a vida inteira achando que desrespeito é uma forma de amor e a violência sua expressão. Quando o seu filho praticar uma ação violenta, observe as suas próprias atitudes…

Confesso que esperava um final mirabolante, animado e colorido como os sonhos da personagem principal, contudo o que assistimos sobre as suas descobertas se torna muito mais grandioso que qualquer sucesso que ela pudesse ter… Afinal, que diabos! Não é uma versão negra e pobre de Hair Spray e ao mesmo tempo que parecem surgir alguns clichês, fica longe o clichê de auto ajuda. A cena final que pode deixar a desejar talvez assim esteja por mostrar que a vida é feita de um dia após o outro e que muitas das nossas vitórias não são comemoradas por acontecerem exatamente num dia como qualquer outro de nossas vidas. Deixa um espaço vago, pois afinal nossa vida não termina…

Preciosa é uma adolescente com vida de adulta que vive numa desgraça sem fim e que ao final de tudo recebe como prêmio uma desgraça maior ainda e que aprende a viver com ela ou apesar dela. Aprende  a ser útil sem ser subjugada. Aceita um destino que jamais supunha e ao final, ao ver perdido pra sempre sua ilusão, seu sonho de menina, descobre todos os grandes motivos para viver.

Emociona quando ela deseja transmitir ao seu filho coisas que ela não conhece e não entende mas percebe que é bom justamente por nunca ter conhecido nada de bom. Conviver com pessoas de um nível melhor pode ensinar mais do que comportamentos, pois se aprende a partir do que não se entende  mesmo que talvez seja um pouco tarde demais para se obter, mas não custa tentar e aí dá-se a substituição do sonho-fuga-pela-imaginação pelo sonho possível.

Ter sido vítima de violência não é necessariamente um motivo para tornar pessoas eternamente violentas, mas estar constantemente em estado de violência e de amor completo, é fatal. Sim, é óbvio, eu sei… Tão óbvio quanto o fato de que não adianta dar um mundo físico melhor se nele não houver a sensação de importância.

Preciosa é capaz de concluir a partir do que observa no seu novo mundo. Se antes nele só havia o aspecto do romance entre homem e mulher, tudo muda vertiginosamente na medida em que percebe o amor que nunca existiu no seu mundo.

O maior gueto está dentro dos que habitam os guetos.

A pior realidade está nos que tem pena de si mesmo e não olham à sua volta.

Aqueles que tendo amor dentro de si, jamais encontraram quem pudesse fazê-lo desabrochar, não encontrarão motivos para buscar uma vida verdadeira e digna.

Clareece Precious (Gabourey Sidibe), em sua limitação fornecida pela vida e família, descobre o que muitos declaradamente sensatos e de mente aberta não são capazes de perceber.

Está tudo ali, mas é bem possível que muitos não vejam.

Sim, havia outros personagens no filme, mas e daí? Algumas performances são magistrais, outras no mínimo interessantes. Como a comediante Mo’Nique consegue chegar àquela carga de drama, bruxa, despertando ódio e asco é algo que só especialistas em talentos poderiam talvez explicar.

O fato é que não se está nunca livre de uma desgraça, mas temos várias formas de passar por ela e que aquele que nunca teve algo de bom para viver pode passar a ter desde que esteja esperto para descobrir que tenha…

Está tudo ali, esforce-se para ver!

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À DERIVA

À Deriva tem uma riqueza de detalhes digna de uma reconstituição arqueológica e também escarafuncha nossa alma através do drama alheio, ao nos colocar frente à uma realidade que de uma forma ou de outra conhecemos, seja por termos vivido, seja por termos ouvido em comentários ou em tom de desabafo de algum amigo e por que não, amiguinha de infância?
O filme nos remete a vários pensamentos e passa de uma forma se não contundente muito tocante, a mensagem de que não devemos julgar com precipitação, pois nem tudo o que nos parece é. Tudo isso embalado por belas imagens, fotografia linda, ângulos bonitos e uma trilha sonora eficiente. O filme se passa numa casa de praia, com uma família atpé então prefeita em temporada de férias. Mostra uma grande turma de adolescentes e suas descobertas, mas tem cenas internas escuras e algumas tomadas da praia tem um contraste do cinza dos rochedos e um certo tom pastel como que a mostrar que nem tudo é alegria nos momentos que deveriam ser felizes felizes.
O bacana desse filme é que vamos descobrindo todas as coisas junto com as personagens. É surpreendente, por isso não dá pra achar chato, como alguns que o viram antes de mim comentaram. Podemos nos questionar com relação até que ponto somos responsáveis pelo que nossas atitudes vão gerar em nossos filhos.
Qual o limite das coisas que devemos dividir com eles.
O quanto eles podem saber sobre nós sem que percebamos e o quanto eles idealizam sobre nós sem que saibamos.
Crescer dói e a história universalíssima deste filme nos informa que chega um momento na nossa vida que não dá para nos recusarmos a crescer e este processo uma vez iniciado, não terá fim jamais e nós, por mais que tenhamos uma idéia do que queremos ou de para onde desejamos ir, estaremos sempre à deriva. À Deriva é um filme emocionante, por ser verdadeiro.
Filipa ( Laura Neiva, em seu primeiro trabalho – descoberta pelo diretor através do Orkut, flerta feroz e displicentemente com a câmera que ora mostra uma menina, ora mostra uma quase-mulher, sempre um rosto anguloso gostoso de ver) está se descobrindo como mulher. E nós sabemos que isso significa querer ao mesmo tempo que não se quer. Querer para não saber o que fazer quando conseguimos. Ela exercita seu poder e influência, sobre Arthur ainda que não saiba exatamente o tamanho da sua “autoridade”. Filipa julga seus pais a partir das suas descobertas, segue investiga, observa e se no início aparece apegadíssima ao pai, para o qual parece dirigir um olhar ligeiramente incestuoso, pouco depois “compra o barulho” da sua mãe até perceber que precisa ter seus próprios problemas, até ouvir o chamado da sua própria vida. Não sei se intencionalmente, mas este filme pareceu-me dizer que existe mais de uma forma de ouvirmos este chamado.
A mãe de Filipa, Clarice – na interpretação equilibradíssima de Débora Bloch afoga as mágoas em duas pedras de gelo e muitos dedos de whisky chegando a comover pela insanidade em que se move, apesar do mau exemplo que dá aos filhos. Ela tem a árdua tarefa de definir uma situação difícil por natureza, reveladora de sua natureza e que acaba por decidir sem raciocínio, sem se reconhecer na decisão. Clarice está à deriva boiando à superfície dos seus sentimentos seus e na expectativa de outros sentimentos não seus. O irmão mais novo de Filipa faz um contraponto que mostra a total inexistência ou inutilidade de um filho do meio, neste filme uma filha.Seu pai, Mathias (Vincent Cassel), um escritor francês nos aponta os caminhos do nosso pragmatismo, do quanto podemos estar errados ao julgar a partir do que vemos. Do quanto a nossa cultura nos leva a preconceber julgamentos que jamais se concretizarão dentro de uma razoável razão. É ele quem vai nos mostrar o quanto podemos ser capaz de nos renovar mediante certas situações e o quanto isso pode ser inútil e quanto o aceitar uma opção na qual não estamos incluídos pode nos fazer mudar nossos conceitos. É diante do inevitável fato consumado que Mathias entende o pensamento prático de Clarice vendendo os direitos do seu livro para um diretor de TV que não admira. A separação tem disso: Nos mostra uma força que não sabíamos que tínhamos e uma coragem que não sabemos de onde veio. Algumas descobertas levam alguns pelo caminho mais egoísta e tornam outros mais ternos.

Esse filme tem as tintas exatas de todo um cenário de revolução de sentimentos, desejos, interesses e costumes de uma época e de algumas fases que passamos ou poderemos passar. Tem um clima de mistério de quem está descobrindo o mundo, a vida, a morte, a violência, o corpo, amor. Com muitas cenas aquáticas, sempre temos a impressão de que algo de grave virá após tantos mergulhos e bater de pés. Tem figurinos perfeitos, muito bronze, cenários paradisíacos e atores excepcionalmente bem escolhidos. Dá pra ver se não a nossa vida, nossos medos passando na tela, de uma forma que deixamos de dar importância à gaveta revirada e arma desaparecida, afinal Mathias, está tão ausente da família exatamente por estar inteiramente submerso e flutuando nela.

MILK, A VOZ DA IGUALDADE. POUCO BARULHO PARA TUDO


“Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia” e felizmente existem mais coisas entre a resenha e a crítica especializada que nos faz ir ao cinema, sem nos importarmos com o que elas ditam! Não fosse o Oscar recebido por Sean Penn e talvez muitas centenas de brasileiros não tivessem ido assistir a este filme. Então parabéns a Academia! Não importam os motivos que a levaram a premiar o filme, se é que existe algum outro motivo além da atuação do seu ator principal e o mérito do roteiro. É fato que o filme é muito bom! As imagens de arquivos incluídas no filme lhe emprestam certa contundência, a princípio parecem longínquas, fragmentos arqueológicos de um passado com atitudes condenáveis do sentimento repulsivo que é a intolerância e a representação da falta de liberdade. No final, as fotos das personagens verídicas confrontadas com a dos atores, nos faz admirar as escolhas da produção. Não dá pra sair da sessão sem refletir sobre o “miolo” do filme e nem é preciso ser gay para isso, se alguma sensibilidade existir no expectador, será um processo mais do que natural.
Até ver o filme eu não tinha a mais vaga idéia sobre quem era Harvey Milk, depois de ver, percebi que o conhecia nos amigos gays abafados em “armários” ou assumidos vida afora, com consciência que ser homossexual não é um diferencial.
Milk tentou eleição para o cargo de “supervisor” (equivalente a um vereador ou talvez um subprefeito) da região na qual vivia várias vezes, tentou sem obter, o endosso para essas eleições. A cada derrota, a margem de votos perdidos diminuía e a vitória só chegou quando uma nova assessora, buscou o apoio da mídia, não para um militante da causa gay, mas para um bom comerciante. É verdade que o filme mostra o preconceito dentro do gueto, as piadinhas dos cabos eleitorais para uma mulher, agora a responsável pela imagem e campanha do eterno candidato. Minha primeira conclusão: O gay tem preconceito tanto ou mais que um hétero…Minha segunda conclusão: somente um segmento, não elege um candidato, as pessoas não votam em causas, podem até votar em causas próprias desde que não se exponham por isso.
Nos primeiros momentos do filme, no dia do seu aniversário, Harvey Milk, ainda no armário, paquera um rapaz, Scott Smitt ( James Franco) numa estação de metrô. Não é preciso ser garoto de programa, nem cliente para uma paquera tão ousada num lugar tão mal afamado. O rapaz, então lhe diz que não sai com ninguém acima dos 40 anos e, a primeira mostra do bom humor da personagem é a sua resposta: “Hoje é seu dia de sorte, ainda estou com 39 anos”. Eles saem, ficam juntos e vivem um relacionamento tanto estável quanto inesquecível!
Aqui no Rio de Janeiro, fala-se muito em amor de carnaval, como se boas pessoas, capazes de se apaixonarem e viverem uma relação duradoura fossem obrigadas a não gostar de carnaval… Concluo que se é amor, ele acontecerá, não importando o local ou a data nem mesmo o sexo, nem mesmo nosso ideal de pessoa perfeita para relacionamento. Nessa altura da narrativa, Milk mora em Nova Yorque e busca relacionamentos discretos, escondidos para não sofrer represálias. Diz que tem 40 anos e nada fez de relevante em sua vida. Ele e Scott concluem então, que é preciso mudar de ares e lá se vão eles para São Francisco, Califórnia, Rua Castro. Podemos dizer que aí o filme começa.
No último cheque desemprego de Scott Smith, Milk decide abrir uma lojinha de fotografia. A recepção no bairro não é amigável, sofrem ameaça do presidente da associação de lojistas ou algo que o valha. De visual hippie, não se intimidam, a loja vira referência, o bairro transforma-se em point gay (o que continua sendo até hoje) e Milk começa suas tentativas de se eleger.
Trabalha duro durante as campanhas, volta a usar o visual comportadinho – e não é que me lembrei do nosso presidente Lula e seu banho de loja travestindo-se com seus Armanis!
Em suas panfletagens, conhece Cleve Jones (Emile Hirsch). Ele não está interessado em política, não quer saber de ativismo, está com dinheiro no bolso indo para a Espanha. Sou obrigada a concluir que grandes ou pequenas causas não movem um cidadão comum, enquanto elas não lhe arranham a própria pele. Gay ou não, somos individualistas e ponto. Cleve Jones, irá reaparecer no filme, após ter “quebrado a cara” com o seu “amor espanhol” e terá uma participação de destaque na história.
Quando Harvey Milk, finalmente consegue eleger-se, a cena é de uma festa como só os gays sabem fazer. Antes dessa vitória Scott já tinha se mandado, parece que ele não agüentou tanta invasão, tanta gente, a casa eternamente lotada. Tantas tentativas de eleição foi demais para ele. É quando surge Jack Lira (Diego Luna), um desajustado, desequilibrado a quem Milk acolhe e ama. É, o gay não é realmente o estereótipo que pensamos, pelo menos Harvey Milk neste filme não é!Coisa rara e jamais comentada, o amor masculino é capaz de doação e Milk ressente-se de talvez não ter feito tudo o que podia ou deveria tentar ter feito pelos seus relacionamentos.

Quando surge em cena a Sra. Anita Bryant, cuja aparição é mostrada apenas em imagens da época, utilizando a religião como ferramenta legal na defesa de um Deus preconceituoso e perseguidor de outros seres humanos, com a Proposta 6, que sob o pretexto de salvar as crianças americanas das aberrações que são os homossexuais, como um início de caça às bruxas, apartando os gays de seus empregos, proibindo professores gays de exercerem sua profissão, Milk se lança numa cruzada em defesa do “seu público”. Nesse momento vemos que aquelas imagens de arquivos incluídas no filme não são peças de arqueologia nem as Cruzadas se extinguiram com a Idade Média.
Não sei o quanto este filme é fiel a vida real de Harvey Milk, sei que Sean Penn interpreta magistralmente um homossexual, que mesmo assumido não sucumbiu ao prazer de divertir a sociedade com uma caricatura. Que fazia piadas com a sua condição sem perder o respeito. Que um gay não depende de chiliques para demonstrar suas emoções, antes, se emociona e muito. Que uma liderança pode mostrar a um jovem paralítico e execrado pela família que ele pode sim, mover-se em busca daquilo que ele é realmente e que ser homossexual e paralítico não é uma linha entre duas desgraças sem fim.

Vale mencionar o desempenho de Josh Brolin como Dan White, um sujeito tão bitolado que não percebe necessidades do seu distrito dignas de elevá-lo a categoria de líder. Dan White numa determinada cena desabafa que Milk tem uma causa, como se a causa fizesse dele tudo o que ele era em vez do contrário. A vida é assim: os medíocres acreditam verdadeiramente nos seus conceitos e conseguem lançar mão da arbitrariedade, utilizam-se da violência que transforma leis, religiões e pensamentos em armas! Eu não quero concluir que as mentes medíocres crêem com muito mais força e veemência nas suas verdades do que as mentes singulares acreditam nos direitos e liberdade!

Por fim, minha última conclusão: Quando a arbitrariedade é absurda demais, os oprimidos se unem de tal forma, que naquela época as “gays parades” tiveram sentido e objetivo inteligível para todo o restante da sociedade.
O preconceito velado é muito mais perigoso que o a voz dos políticos em megafones conclamando toda uma população a fazer valer os diretos de Deus, como se eles tivessem uma procuração do Altíssimo. Num momento onde as perseguições (se é que existem) são discretas, a Proposta 8, que impede o registro da união entre pessoas do mesmo sexo, foi aprovada em 2008, nos Estados , o que originou o comentário de Sean Penn durante o recebimento da sua merecida estatueta: “Aos que votaram contra o casamento gay, envergonhem-se.”
A montagem deste filme é primorosa, seu ritmo embaladíssimo para uma cinebiografia, o elenco é sensacional, o filme merece ser visto e merecia ter sido mais apreciado pelos especialistas em resenhas e pelos críticos que pararam na sua superfície ou talvez no beijo de Sean e James…

LEMON TREE

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Um filme sensível, de belíssima fotografia com excelente e linda atriz. Beleza a despeito da idade ou justamente por causa dela, me pareceu uma perfeita palestina retratando a Palestina. Salma Zidane (Hiam Abass), numa primeira cena aparece cortando limões e fazendo compotas. Vê-se em suas mão a habilidade de quem breve terá um limão não azedo mas muito amargo para cortar…

O filme recheado de muitas sutilezas, delineados por clarezas deixou-me ligeiramente deprimida por sua carga de injustiças e dominações daquelas que nada podemos fazer a respeito até que percebemos que por maior que seja o oponente e por menor que seja o oprimido, notamos o quanto de covardia pode haver nesse clichê “o que eu posso fazer?

Vive Salma com seus mais de 40 anos, a plantar seus limões, a cuidar do seu pomar, plantado há mais de 50 anos por seu pai. O maior adubo das árvores são com certeza, história e lembranças, e seus frutos transformam-se em limonadas que nenhuma personagem deixou de exclamar como deliciosa.

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Entre muita solidão e algumas lembranças, Salma vai levando a vida, viúva, com filhos criados vivendo distante, até o dia em que ganha um vizinho, de nome Israel, ministro da defesa do Estado homônimo. Um chefe do Serviço Secreto supõe que o pomar de Salma seria o um caminho estratégico para terroristas que quisessem atentar conta a segurança do ministro. Ela recebe uma carta comunicando o fim do seu pomar e que seria indenizada por isso. Começa aí, um pesadelo temperado por esperança e perseverança. O primeiro passo é traduzir a carta escrita em hebraico. O segundo buscar ajuda. O filho que mora nos EUA, não pode sequer terminar com tranqüilidade o telefonema; a filha casada e com 2 ou 3 filhos e marido é mais comovida com sua própria penúria que pelo drama da mãe e, no local onde estão apenas homens onde ela consegue de um “amigo” a tradução da carta. Tudo o que ela consegue saber além do conteúdo, é que nada pode ser feito, arbitrariedade similar já ocorrera com todos por ali e ela, palestina, não pode aceitar nenhum dinheiro israelense… O egoísmo que sacode por lá é o mesmo que paira por cá…

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Salma Zidane contrata um advogado (Ali Suliman), indicado pelo genro. Eles vão à corte onde sequer conseguem falar. Ela decide recorrer a Suprema Corte. A partir daí, sentimentos desdobram-se diante de atos e fatos. É sutil e delicado porém perceptível o envolvimento e quase sedução madura de quem não pretende uma entrega mas compreende o direito feminino de mostrar-se bela: Numa cena onde ao atender o advogado que bate à porta, ela decide não usar seu hijab; nas cenas onde ela passa o seu baton e naquela, em que ela tira o mesmo baton para atender alguém que chega e que não é o advogado. A delicadeza com que o medo é mostrado é a mesma que mostra o modo das personagem ir em frente.

É clara a solidão de Salma quando ela conta que quando não há uivos de lobos, ela se sente só e quando eles uivam ela se sente uivando com eles. É claro a sua obstinação quando ela em uma única frase resume a espinha dorsal de todo o filme: “eu já sofri demais” (e por isso exatamente por isso, ela vai à luta e não entrega sem resistência tudo aquilo que ainda possui e que lhe traz paz de espírito, sua casa, seu pomar, suas lembranças, suas tradições culturais. Não importa o preço ela paga!)

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Lemon Tree,é um filme tocante que mostra a intolerância daqueles que já acostumamos a ver como vítimas. Mostra a disputa e os poucos lados da única questão que é querer o que é do outro. Tomar posse simplesmente por achar que se tem direito por ser o mais forte, o detentor do poder, da autoridade. É o que demonstra a visita de um provavelmente parente do finado marido, a dizer que mantenha limpa a memória do falecido. Não importa de que lado esteja a força, ela estará forçando sempre o mais indefeso… Assim, a atitude ou falta dela com a qual se responde ou se corresponde às situações nas quais o uso arbitrário da força nos coloca.

Esse filme é baseado numa história real e, talvez por isso mexa na ferida que é a impotência consentida ou não e seus descaminhos.

Mira (Rona Lipaz-Michael) surge no filme, numa situação de felicidade e futilidade. Ela é a feliz dona de casa judia, casada com o ministro da defesa de Estado de Israel. Durante os preparativos para a festa de inauguração da casa, eles têm uma conversa que demonstra que se ela faz algumas concessões, não significa que seja desatenta ou que ignore os fatos. O nível de tolerância do ministro é claramente demonstrado quando Mira sugere iguarias árabes e o marido, depois de breve rodeio bate o martelo escolhendo o cozinheiro e que este faça apenas comidas kosher…

Mira, se envolve na causa da sua vizinha árabe, através de olhares e atitudes que irão perdendo a timidez ao longo do filme. Esse filme é um grande filme muito mais por aquilo que induz do que pelo que mostra. Muito mais do que a disputa entre palestinos e israelenses, mas por mostrar a forma como cada uma dessas culturas tratam suas mulheres, semelhantes e rivais. Espera-se um comportamento respeitoso sem que nada se faça para realmente o obter, nisso em que eles são diferentes dessa nossa cultura tão ocidental e moderna?

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Exceção a essa regra, é o misto de empregado, pai de criação e melhor-amigo- que- parece- não- dar- muita- confiança, o bom velhinho que recusa convite pra almoçar mas se interessa em saber sobre a visita da filha de Salma, o que demonstra que ele percebe a sua solidão mas por motivos culturais, vê esta solidão como algo inerente ao destino de uma mulher viúva e árabe, o que não o impede de ir às “vias de fato” com Ziad. Dessa forma, essa personagem que não sei o nome deste ator que desconheço, é o único que não vai até Salma fazer-lhe cobranças e imposições por seu comportamento, como se um relacionamento, quando precisa ser proibido, fosse de competência única e exclusiva da mulher, afinal ela é o pecado, o homem só erra por ser tentado…. Conhecendo Salma desde criança ele confia nela e só no final do filme entendemos essa forma de relacionamento sem conversa, apenas por atitudes, sim, exatamente da mesma forma como se “comunicam” Salma e Mia…

Em filmes que falam pela ausência de palavras um quadro na parede pode dizer muito de uma produção, tanto quanto o casaco que uma personagem veste. Reparem além da foto do marido de Salma na parede, a foto do craque Zidane no quarto de hóspede e o agasalho verde e amarelo de Ziad.

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O par da nossa heroína, Ziad Daud deixa claro que há os que se acomodam sem motivos para mais uma luta, pois desistiram, porém tendo uma boa causa, se empenham e se aplicam em vencê-la, o que não significa que seus horizontes se expandirão muito além dos seus interesses pessoais. Outra lição que o nosso advogado nos passa é que nem sempre o melhor aliado para uma luta seria melhor companheiro para nossa vida…


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Agora, uma anotação muito pessoal:

Eu que cresci vendo nos telejornais essa loucura palestino-judaico (ou seria vice-e-versa?) sem nunca ter compreendido muito bem, ao que um dia um professor me disse que “se fosse fácil eles já teriam se entendido e nós simplesmente estudaríamos história”, óbvio que tomei o caminho mais fácil de não buscar entender nada tão complicado. No entanto, por influência da 2ª guerra, tenho como muitos da minha geração, o vício ou tendência de ver os judeus como vítimas eternas. Este filme me sinalizou que já passou da momento de rever vários dos meus conceitos. O mundo é muito mais do que nos diz as fantasias americanas.

QUEIME DEPOIS DE LER

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Queime depois e ler, é uma piada, que fará rir quanto mais despretensiosamente for assistido. Lava a alma de quem já cansou de ver americano salvar o mundo ou apenas um homem americano acabar sozinho com a banda podre do mundo.
Ver a liberdade sexual e o divórcio virar brincadeirinhas de pessoas depressivas, fúteis e entediadas em vez de a salvação afetiva que o mundo precisaria aprender com a América.
Ver o quanto uma americana acima de 40 valoriza a amizade e sua necessidade vital de fazer cirurgias estéticas.

É isso, um agente da CIA é demitido ou levado a demitir-se, quer virar consultor e escrever suas memórias e sua mulher grava em CD esse arquivo que é levado paras as mãos erradas pela gorducha secretária que malha numa academia onde se encontram tipos hilários e improváveis…

“Queime Depois de ler”, achincalha o poder. O poder da mulher empregada em detrimento do marido que pede demissão por motivo de orgulho profissional.
O poder da Inteligência Americana e sua relação com os crimes ocorridos em função dos seus próprio erros.

14122008 – queime depois de ler

O filme começa com uma tomada de imagem via satélite muito legal e com uma música que sinceramente, gostei. A imagem “invade” o prédio da CIA e mostra a demissão arbitrária de um agente nível 3. Ligeiramente deprimido ele vai pra casa e não consegue contar à mulher da demissão, pois ela está ocupada com os preparativos para receber visitas, um casal amigo que o marido detesta, aliás eles se detestam mutuamente. Tem o agente que em 20 anos de serviço nunca usou a arma e os caras da CIA que há tempo no poder nada fazem de sério, relevante ou coerente. Enfim, o filme vai brincando com tudo aquilo que os americanos levam a sério e que nós nos acostumamos a acreditar.
A noção exata de que se trata de uma comédia chega com Brad Pitt dando uma de detetive, vigiando a casa de um suposto espião, dono do CD com uma inimaginável dancinha de braços, simplesmente impagável! A cena do armário, achei excelente! Nunca achei tão divertido ver alguém morrer, então o filme tem um humor negro funcional.
Excelentes atuações porque comédia, afinal, não é pra qualquer um.

queime-depois-de-lerUma comédia sobre falsos espertos querendo faturar uma grana e sobre todos tentando se livrar uns dos outros. Enfim, é um filme que não vai deixar lembrança, vai te dar umas breves oportunidades de riso e talvez satisfaça aquele lado todo-americano-é-ridículo.
O que aprendemos com o filme? Que não se escolhe filmes pelo trailer, nem pelos atores bonitões; que depois de pago um ingresso ele até pode pode valer a pena, se a sua alma não for pequena…

ROMANCE

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Romance é uma surpresa. Delicado,inteligente, bem humorado, instrutivo. Discute o amor, a paixão que podemos ter por uma pessoa, pela arte. Recheado de ótimos diálogos de lindas cenas de amor, até me vi satisfeita por ver Andréa Beltrão diferente das personagens que ela sempre interpreta de maneira, que a mim ficam parecendo tão iguais. Há diálogos no filme que tive vontade de escrever, decorar para não perder de vista. Há coisas do velho Shakespeare tão frescas! E ainda a informação que todos os romances trágicos nasceram de Tristão e Isolda, a partir do século XII e que o beijo final do início dos romances com a felicidade eterna que ninguém vê, começaram no século XVII.

Como fã de cinema brasileiro, claro que vai parecer suspeito, como originária da geração barzinho com violão e papo cabeça, encontro temas e mais temas para discussões e risadas. A verdade é que, não vou ao cinema para não gostar mas nesse filme não precisei fazer o menor esforço.

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Discussões batidas como diferença entre amor e paixão, discussões profissionais entre a romantização do teatro e a pasteurização da TV que se dá o direito de mudar finais de clássicos e decidir o que o público realmente gosta de ver.

Wagner Moura interpreta o inteligente e idealista Pedro, que como tempero leva uma certa dose de ciúme. O cardápio de questões é bem extenso. Um amor recíproco pode ser infeliz? A paixão tem duração pré-definida? Até que ponto podemos nos apaixonar pelo que vemos e não pelo que o outro é? As histórias precisam ter sempre um final feliz? Uma obra precisa apresentar coerência? O ator tem que escolher ser de teatro ou TV e é possível fazer os dois ao mesmo tempo? Como lidar com o parceiro que se torna bem sucedido ao escolher o caminho que decididamente não queremos trilhar?

O público que busca a ficção, afinal, quer morrer de rir ou debulhar-se em lágrimas? Letícia Sabatella envelhecerá algum dia?

Quanto tempo de projeção um monstro como Marco Nanini precisa para roubar a cena? É impagável seu aparecimento na trama e sua entrada numa das ficções dentro desta ficção. Chega a ser hilária a nuance de José Wilker interpretando “deus”. Nada difícil, associarmos alguns personagens com pessoas que conhecemos de tanto que vemos nas revistas de celebridades…

Ao fim de tudo somos brindados com várias versões de Tristão e Isolda, com finais diversos. Considerei um brinde as cenas de nus, em se tratando de romance, sexo é sempre bem-vindo, sorrisos e risadas também!

Romance é um filme sobre romances e amores e nossas reações diante das contraditórias situações nas quais os sentimentos nos envolvem.

Finalmente um filme que uma vez em DVD eu veria muito mais de uma vez.

CLOSER PERTO DEMAIS

Foi nesse filme que me apaixonei pelo Clive Owen.
É um filme para se rever a cada momento da vida em que não tenhamos desistido da aventura que é conviver, amar, o que acaba por muitas vezes a nos levar frente ao nosso reflexo no espelho do outro…

“Muito louco” esse filme, que pode nos trazer a reflexão que ali ninguém amava ninguém, mas todos se amavam muito…
Tal qual na vida real… Quando colocamos no amor a expectativa das carências atendidas; que no amor está implícito receber; a troca que no cotidiano acaba por tornar-se barganha e, muitas vezes, o que chamamos de amor e felicidade é o prazer não só do sexo, mas da conquista que segue como posse…

O meu mundo é lotado de de Annas, pessoas que não ficam sozinhas, precisam de um par constante mesmo que tenham que trocá-los constantemente (o filme começa com ela recém-separada, permitindo-se ser atraída pelo Dan e logo depois casada co Larry).

Conheço muitos Larrys, capazes de relacionamentos superficiais on line, que arriscam por trazê-los pro mundo físico (quando ele encontra a Anna, supreende-se que ela seja tão bonita).

A porção Dan é a que está mais presente no nosso mundo, aquela coisa de testar o sex apeal, de insistir numa paquera, o “não” parece estimulá-lo enquanto ele não adquiriu seu objeto de desejo. Ao meu ver ele é a versão masculina da Anna, começa tendo uma namorada de nome Ruth, vai morar com Alice, se apropria da sua vida escrevendo um livro baseado nela e enquanto isso mantém um caso com Anna, que por sua vez, sabendo-o comprometido, sapeca-lhe um beijo, seduz como se fosse apenas seduzida e segue casando-se com Larry.
Entendo, às vezes é difícil escolher, às vezes o atendimento às nossas necessidades está diluído em pessoas diferentes…

Da 1ª vez que vi este filme, não tinha percebido que Alice era a grande invejada da trama, embora não tenha sido a escolhida. Dessa vez a vi como aquelas personagens dos contos de fadas que esperam pelo príncipe encantado, ainda que não espere sentada, ativamente ela espera.

Ela poderia amar Dan por toda a vida, se ele soubesse ou tivesse aprendido conhecê-la, entender que ela realmente o amava, que muitas vezes estar fisicamente com alguém, não significa estar amando alguém, alguém que pense assim pode ser striper sem trauma, sem culpa e sem traumatizar. Alice não tinha culpa e vivia bem com isso. Dan poderia ter percebido que a única ambição de Alice/Jane era ser amada com carinho e verdade. Ela nunca trazia bagagem e acostumada que era a separar razões e emoções, desta vez não traz sequer um nome. E se Dan viveu com ela tanto tempo sem sequer descobrir seu verdadeiro nome, como poderia conhecer sobre o seu amor? Interessado que estava em ter exclusividade sexual, entretido na competição com Larry, ele não olhava para nada que não fosse ele mesmo que se refletia em… Anna(?)

Sim, Dan ama Anna que o ama também! Mas este é um filme sobre as contradições que nós criamos, sobre as dificuldades que sobrepomos ao que já não é tão fácil, ainda que seja simples. Sobre a nossa falta de coragem de encarar nossas fragilidades, defeitos e dificuldades de escolha (e quem sabe, por que não, buscar terapia?).
É ai que Larry deita e rola, ou melhor, deita e dorme.
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Larry merecia um “capítulo” à parte.
Qual a mulher que nunca trombou com um homem desses ditos experientes, que seduz, conquista, briga por sua posse, joga com a sua culpa (pra ele mulher boa é a culpada que enquanto remói as culpas não sai de casa) pra dormir no final?
Sem falar que, ele pecebendo a natureza depressiva da pobre coitada, acha que fazer feliz é fazer com que ela permaneça infeliz (assim é se lhe parece?). Repito “muito louco”, tipo o masoquista implorando ao sádico que pare de torturá-lo….
Grande filme, agendei pra rever ano que vem.
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Esse blog me faz feliz demais! Onde poderia escrever essas coisas, que pasme, penso?

Em: 28 dejulho de2008 – no blog Cinema é aMinha Praia