Pensamentos

Se a gente não revoluciona a vida, a vida revoluciona a gente. Alguém que sabia disso falou: “pobre só vai pra frente com topada”, parafraseando: rico também. O ser humano se não vai pra frente pelo bem, lá vai pelo mal. Sim, é bem verdade que topadas derrubam, mas teria crescimento maior que perceber a necessidade de se levantar?
Eu sei tem gente que parece que não “aprende nunca”, mas quem somos nós outras pessoas pra afirmar isso?
Algumas pessoas transpassam o que são e consequentemente suas transformações. Outras não conseguem ensinar a tabuada para uma criança, como conseguiriam nos transmitir seus conhecimentos pessoais? A sabedoria adquirida é impessoal e intrasnferível e muitas vezes inacessível…
Algumas pessoas aprendem vendo fazer.
Tem aquelas que aprendem com erros alheios.
Algumas só de ver certas consequencias se apavoram, ficam com tanto medo que se paralisam de certa forma não evoluem, ou involuem…
Ultimamente tantas coisas me aconteceram e tantas coisas vi acontecer que me ponho a pensar que adquirimos mais conhecimentos com as perdas do que com os ganhos, no entanto ambos nos transformam…
Ando há tempos sem conseguir me livrar do episódio do falecimento do Rafael, filho da Cissa Guimarães. Tenho sonhado com ela com frequencia. Ontem, atrasadamente, li que os envolvidos responderão por homicídio doloso, com intenção de matar. Achei justo. Não é possível alguém se atirar do alto de um edifício sem a intenção, pretensão ou mesmo noção de que vai se esborrachar.
Não é bacana sair por aí praticando atos sem a noção que outros irão se ferir. Às vezes não passa pela nossa cabeça que o mal possa acontecer, mas isso não justifica praticar o ilícito, ilegal ou incorreto só porque ninguém está vendo. Também não dá, eu sei, pra ser correto em 100% do nosso tempo, mas me parece que essa seja a nossa obrigação como pessoas que convivem em sociedade e como seres que se julgam a obra-prima da natureza, a evolução das espécies, a imagem e semelhança de Deus. É certo que é o inverso, nós transformamos Deus em nossa imagem e semelhança, criando histórias ou acrescentando em conteúdos históricos atos de um deus que castiga, pune, mata e por injustiça, falta de noção ou sadismo envia pro mundo Xuxas e Bündchens e também a maluca desvairada que escolheu morar na esquina da rua onde eu moro, sendo que eu moro num apartamento e ela ao relento. Nós a chamamos de Maria porque ela chama a todos de Maria.
Não compete a mim perguntar porque Deus concedeu-me a capacidade de pensar e até mesmo de escrever ainda que, digamos, articuladamente enquanto que ela, Maria, não consegue sequer perceber que eu não sou outra Maria…
Eu compro os meus cigarros e ela diz pra mim: “Maria, me dá um cigarro”.
Eu compro os meus cigarros porque trabalho e ganho uma merreca que me possibilita isso e ela não compra cigarros porque não tem dinheiro, não tem dinheiro porque não trabalha e não trabalha porque não tem juízo e não tem juízo porque algo lhe aconteceu em algum momento e ela o perdeu ou talvez nunca o tenha tido…
São os pais os provedores dos filhos, isso inclusive é lei e qualquer pai que não o faça, está sujeito às críticas de todos e às sanções cabíveis.
Um Deus de justiça e bondade não se prestaria a deixar um filho em condições tão antagônicas em relação aos outros também seus filhos. Existem pessoas que compram além de cigarros, carros e aviões, pagam por cirurgias estéticas completamente desnecessárias e tantas outras coisas que para mim, estão no patamar de sonho de consumo (alguns até dos quais eu desisti). Eles tem condições para isso, ganharam um prêmio milionários, nasceram em berço de ouro, tiveram oportunidades para evoluir financeiramente a este ponto. A diferença entre eles e eu e Maria e eu, é que eu não tenho o direito de reclamar, aparentemente tenho condições de um dia comprar meus carros e aviões e fazer minhas plásticas, mas a gente sabe que não é bem assim. Até porque acredito piamente que com todo dinheiro do mundo certas coisas não pesariam na minha carteira… Um avião por exemplo, eu jamais teria – um ultraleve com certeza! Mas essa não é a questão, pois estou feliz com o que deus me deu capacidade para ter, com o que tive ou com o que consegui obter dentro das oportunidades que surgiram, muitas delas nem percebidas por mim.
Tenho sorte de poder falar, caminhar, enxergar, não ter doença grave e poder pensar. Abuso do meu direito de pensar, é o meu maior patrimônio ainda que para muitos não sirva pra nada. Pensando não tenho solidão, mas sei que pensar me acrescenta grandes preocupações e me traz um isolamento, em momentos nos quais o pensamento não pode involuir à palavra. Nem todos tem paciência ou interesse de ouvir. Por isso escrevo, escrevendo converso comigo mesma e posso lembrar-me depois. E posso mudar depois e mudo toda hora sobre muitos dos meus pensamentos.
Voltando a Deus Pai e os filhos dos pais e seus provimentos, há pais que podem dar carros aos seus filhos e não podem dar ética ou educação. Há pais que podem dar dinheiro aos seus filhos e também péssimos exemplos. O que significa que não basta juízo, trabalho e condições econômicas pra se formar uma boa pessoa…
O que teriam concluído o atropelador de Rafael, seu pai e colegas que o acompanhavam? Teriam aprendido com esta terrível experiência?
E nós apenas espectadores, o que teríamos conseguido tirar de conhecimento desse triste, fatal e lamentável ocorrido?
Eu espero que se um dia puder dar um carro ao meu filho, antes tenha lhe presenteado com uma educação que não permita com que ele se ache melhor e maior que qualquer pessoa.
Eu espero ser grande o suficiente para orientá-lo corretamente e ter forças pra assumir que se algo deu errado, não será aumentando o tamanho do erro que vamos acertar. Eu espero saber e estar nesse momento transmitindo pra ele que não podemos fazer em segredo nada que nao faríamos publicamente…
O castigo vale muito menos que a nossa consciência e consciência é algo que se desenvolve e transmite, diferentemente da sabedoria que as experiências possam ou não nos trazer…
Hoje é 2ª feira e ontem ouvi um irmão religioso que veio à minha porta contar-me que Deus para proteger seu povo eleito, mandou que se pintasse um sinal com sangue de animal nas portas das casas… Penso que não sinalizando todas as casas foi permitido por Deus que outras crianças morressem e, a minha pergunta é justamente essa:
Deus faria isso?
Caso sim, não é Deus de bondade; caso não, nós fizemos de deus nossa imagem e semelhança…
Ouvi de algumas pessoas que Rafael estava errado em andar de skate no túnel fechado, mas existe uma grande diferença entre alguém que pratica um “arte”, um menino arteiro que não faria mal nenhum a não ser a si mesmo e um rapaz que usa via interditada em alta velocidade, acompanhado de um “carona” o que faria mal a no mínimo mais uma pessoa…
E isso me traz um novo pensamento, por que essa tendência de culpar as vítimas por suas tragédias?
Por que julgamos tanto?
Sim, eu também estou aqui a julgar várias coisas, mas como disse eu penso demais e o meu isolamento é por não discutir, apenas postar aqui nese blog sem leitores. Não faria isso se eu fosse por exemplo, a Martha Medeiros que se postar em seu blog: Atchim, terá milhares de comentários dizendo: Saúde!!!
Isso me leva a pensar que existe vantagens enormes tanto para mim quanto para a Maria, aquela da esquina da minha casa… Em certos aspectos ela é livre, não paga contas, não tem responsabilidades por seus atos. Se vale a pena ou não, não vem ao caso, cada rei no seu baralho e a gente só tem que viver, por isso crescer dentro das nossas limitações e como eu dizia, as perdas tem muito mais poder de expandir nosso universo pessoal do que os ganhos.
Sim, às vezes perdemos coisas, outras vezes pessoas. Às vezes a tragédia não tem remetente, não induz culpados. Muitas vezes as perdas são irreparáveis e devastadoras. Perder um ente amado é dor, perder um filho não tem nome, saber que essa perda é fruto de uma falta de caráter transmitida – até onde aprendi negar socorro, fugir às responsabilidades não são caracteríaticas de gente de bom caráter. Mas se essas pessoas envolvidas e responsabilizadas criminalmente aprenderem com tudo isso, o mundo terá substancialmente aumentado o seu tamanho e se nós pudermos aprender só de acompanhar de longe esses fatos, o Universo estará mais respirável.
Cissa disse numa entrevista que ima gina que há pessoas que “não vão com a sua cara”, é provável querida, ninguém é 100% unanimidade, mas a questão é o que você fez do seu filho e isso se demonstrou através das manifestações daqueles que o conheciam. Não foi apenas a população estarrecida com uma fato trágico, foram amigos do seu convívio e dele dando mostras sobre o que vocês são.
Tivessem as pessoas indiciadas criminalmente, um histórico parecido e teríamos vistos manifestações solidárias tambem para eles…
O que me traz mais um pensamento:Um modelo de família tradicional e bem visto pela sociedade pode não ser essa maravilha que se diz, apenas reforçar a idéia de que muitos ou todos acham que não é nada demais o erro se ninguém está vendo.
Para alguns, o bom viver é imagem holográfica.
Para outros o bem viver é estar em paz. esteja em paz minha querida amiga, Cissa, sua história pode fazer a todos muito melhor.
Aliás, já que essa postagem ficou longa, chata e pessoal, dou-me o direito a mais um pensamento: As pessoas que não vão com a sua cara, sabem que você atua na luta contra o câncer?
No seu trabalho de conscientização para doação de medula, sangue, órgãos? Não, elas não devem saber disso e se sabem não devem articular o seis ao meia dúzia, afinal o que uma coisa teria a ver com a outra, não é mesmo?
Mas eu vou te dizer algo que acho não cheguei a te falar: eu era sua fã, mas desde o dia em que você abriu-me as portas da sua casa para ceder a sua imagem, com simpatia e alegria. Doando seu tempo precioso e o seu principal instrumento de trabalho pela causa eu tornei-me sua discípula.
De lá para cá, eu penso o quanto você trabalhou para formar uma gande família e que casar-se mais de uma vez não interfere na boa formação.
Que necessidades ou dificuldades econômicas não justificam ausências naquilo que é fundamental na criação de uma pessoa, os filhos.
O quanto você tem de dignidade a ponto de transferi-la aos que estão à sua volta.
O quanto de responsabilidade e competência você movimenta no seu universo pessoal e na sua trajetória profissional a cada dia mais diversificada e sólida. Eu que te prestei minha solidariedade agora só tenho que prestar a você respeito, nada de pêsames porque mortos estão os que não aprendem com a vida.
Sim, podemos aprender com os erros nossos e dos outros. Podemos aprender vendo e você me ensinou demais. Não é um consolo, mas talvez explique porque tive vários sonhos onde você aparecia.

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